O TEMPO SEMPRE PASSANDO
Há dias em que o tempo passa rápido demais, como se estivesse atrasado para algum compromisso que não nos foi avisado. E há outros em que ele anda devagar, quase preguiçoso, deixando rastros de silêncio entre um minuto e outro. Mas existe uma terceira espécie de tempo, aquele que encosta na gente.
Ele chega sem barulho, sem pressa e sem intenção declarada. Encosta no ombro como um amigo antigo, cochichando lembranças que não sabíamos que ainda guardávamos. Traz cheiros antigos, imagens desgastadas, risos de gente que já partiu ou que ficou escondida numa prateleira da memória. É nesses instantes que percebemos que o tempo não passa: ele permanece. E permanece justamente nos lugares onde o coração se demorou.
No fim da tarde, quando a luz se deita sobre os móveis e a casa parece suspirar devagar, o tempo encosta mais fundo. E tudo aquilo que vivemos — e até o que não tivemos coragem de viver — brilha por um segundo.
É só isso, e é tanto: o tempo dizendo que ainda estamos aqui.