SOMBRA INCOMPLETA
No espelho antigo, mora um vulto cansado,
que observa o mundo com olhos de bruma.
Diz que procura o tempo que perdeu na noite,
e vaga entre ecos, sem forma alguma.
Quando a vela treme, ele se aproxima,
como se desejasse roubar um instante.
Suas mãos indefinidas tocam o vidro,
num gesto lento, quase suplicante.
Às vezes murmura palavras quebradas,
memórias que ninguém mais reconhece.
Só a lua entende seus desvios,
mas guarda tudo — jamais confessa.
E assim ele vive: preso entre mundos,
metade luz, metade ausência.
Uma sombra incompleta no silêncio,
esperando um olhar que o devolva à existência.