ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Trilogia II
Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago propõe uma alegoria simples e devastadora: uma epidemia de cegueira branca que se espalha sem explicação. Mas o verdadeiro objeto do romance não é a cegueira física — é a moral.
À medida que os personagens perdem a visão, perdem também as estruturas que sustentavam a convivência social. A lei, a ética, o pudor e a empatia desmoronam rapidamente quando deixam de ser fiscalizados. O romance mostra o quão frágeis são os pactos civilizatórios.
A escolha de não nomear personagens reforça a ideia de universalidade. Eles são “o médico”, “a mulher do médico”, “o primeiro cego”. Poderiam ser quaisquer pessoas. Poderiam ser todos nós.
A escrita de Saramago — marcada por períodos longos, diálogos incorporados ao texto e ausência de marcações tradicionais — exige atenção. Mas essa forma também reproduz o caos da situação narrada: tudo se mistura, se confunde, se atropela.
A figura da mulher do médico, única que enxerga, carrega um peso ético imenso. Ver, aqui, não é privilégio — é responsabilidade. Ela vê o horror, a degradação, a violência. E escolhe permanecer, cuidar, agir, mesmo quando não há garantia de recompensa.
Ensaio sobre a Cegueira não é um livro pessimista, mas é implacável. Ele sugere que a barbárie não surge do nada — ela apenas espera que as condições permitam. E que talvez sejamos mais cegos quando acreditamos ver demais.