O ALFABETO DAS PEQUENAS COISAS
Muitas vezes, na nossa arrogância intelectual ou juventude impetuosa, buscamos o sentido da existência nos grandes eventos pirotécnicos, nos épicos monumentais ou nos marcos históricos que supostamente definem uma biografia de sucesso. Que equívoco monumental e que perda de tempo! A vida, na sua essência mais pura, sagrada e cristalina, escreve-se na verdade com um alfabeto miúdo, em letras minúsculas que exigem olhos atentos, espírito sereno e um coração em repouso para serem devidamente lidas e compreendidas.
A vida, naturalmente, organiza este caos de ideias, sabendo muito bem que a beleza não habita no estrondo do trovão, mas nos interstícios do silêncio. Ela mora naquelas frestas onde o quotidiano se revela divino,por exemplo, no cheiro inebriante de um livro antigo que se abre com a reverência de quem entra num templo. É no detalhe quase invisível que a poesia faz sua morada eterna.
Afirmo com a convicção que a verdadeira sabedoria não reside em dominar o dicionário inteiro ou em acumular tesouros que a traça consome, mas em saber ler, com infinito amor, as entrelinhas do que é simples, fugaz e discreto. Um cotidiano simples já não implora ao destino por reviravoltas cinematográficas; ele prefere, agora, o murmúrio constante da chuva fina batendo na vidraça, um som que acalma a alma e convida à introspecção mais profunda. Celebremos o pequeno, o ínfimo e o detalhe, pois são esses fragmentos que, somados, formam a grande e magnífica prosa de estarmos vivos.