- Arquivo Pessoal
A GEOMETRIA DO SILÊNCIO
Houve um tempo em que o silêncio era redondo, liso e ininterrupto. Lembro-me das tardes na varanda onde o único som era o das cigarras ou o estalar da madeira da cadeira de balanço. Era um silêncio orgânico, quase táctil. Hoje, percebo que a geometria do silêncio mudou. Ele deixou de ser uma esfera perfeita para se tornar um polígono de infinitas faces, muitas vezes cortado pelas quinas afiadas da modernidade.
O silêncio contemporâneo é um sobrevivente. Ele luta contra o zumbido elétrico da geladeira, o bip impertinente das notificações e o rumor distante do tráfego que nunca dorme. Mas aprendi que o silêncio mais profundo não é a ausência de ruído externo, mas a presença de uma paz que a gente cultiva como quem rega uma orquídea rara no canto da sala. É um silêncio que se escolhe, uma arquitetura interna que construímos para não sermos soterrados pelo caos.
Observei o sol se pondo hoje, tingindo o céu de um laranja que nenhuma tela de celular consegue emular com justiça. Naquele momento, o silêncio se fez retangular, como a janela por onde eu olhava. Ele emoldurava o mundo. O silêncio não é um vazio; é um reservatório. É nele que as ideias mais bonitas descansam antes de virarem versos, e onde as mágoas perdem o peso até virarem apenas poeira sob o móvel da memória.
Nesta fase da vida, o silêncio tem o cheiro de café recém-passado e o peso de um livro bom repousado sobre o colo. É a geometria do respeito. É o silêncio de quem já disse muito e agora prefere ouvir o que o vento tem a dizer entre as frestas da janela. Às vezes, sento-me à mesa e apenas existo. Sem internet, sem televisão, sem o tique-taque de relógios ansiosos. É um silêncio triangular: eu, minhas memórias e o momento presente, formando uma base sólida que nada consegue abalar.