O INVENTÁRIO DAS CHAVES ESQUECIDAS
Abri a gaveta que todos temos em casa: aquela que chamamos de "gaveta de utilidades", mas que, na verdade, é o cemitério dos objetos que se recusam a morrer. Entre pilhas gastas e elásticos ressecados pelo tempo, lá estavam elas. Um punhado de chaves de latão, pesadas, com um brilho já fosco, presas por um aro de metal que o zinco teimou em escurecer. Olhei para elas e, por um momento, o tempo parou. O que elas abriam?
A vida é esse chaveiro pendurado na cintura da alma. Cada dente de metal dessas chaves foi esculpido por um momento, por uma porta que um dia atravessamos com pressa, com medo ou com uma alegria que transbordava. Mas o mistério da gaveta é cruel: a chave permanece, enquanto a porta, muitas vezes, deixa de existir.
Uma daquelas chaves, a mais comprida e de cabeça arredondada, me transportou imediatamente para a casa da infância. Lembrei-me do barulho que ela fazia ao girar na fechadura de ferro. Era um som de "chegada". Era o som que dizia que o mundo lá fora podia ser caótico, mas que, do lado de dentro, o café estava no fogo e o colo da mãe era um porto seguro. Hoje, aquela porta talvez nem seja mais de madeira, talvez a casa tenha virado um prédio de vidro e aço, mas a chave continua aqui, na palma da minha mão, abrindo uma porta que só existe na minha memória.
E aquela outra bem menor? Seria do diário de um amor de juventude? Ou quem sabe do cadeado de uma bicicleta que me levou por ruas que hoje mudaram de nome? É curioso como acumulamos metais para proteger tesouros que o tempo acaba por levar de qualquer maneira. Guardamos a chave do carro que já vendemos, a chave do armário do primeiro emprego, a chave da casa que alugamos num verão inesquecível em que acreditávamos que o sol nunca se poria.
Nós prendemos que o segredo não está em possuir as chaves, mas em saber quais portas ainda merecem ser abertas. Há chaves que guardamos por puro apego, como se o metal pudesse segurar o fantasma de quem fomos. Mas há também as chaves invisíveis, aquelas que não fazem barulho na gaveta, mas que abrem o sorriso de um amigo, a compreensão de um silêncio ou a paz de um entardecer.
Fechem a gaveta. Deixem as chaves lá, mergulhadas no seu sono de metal. Elas não abrem mais fechaduras físicas, é verdade. Mas bastou um toque para que elas abrissem no coração, um corredor inteiro de lembranças. E, no fim das contas, a melhor chave que alguém pode carregar é aquela que abre o coração para o hoje, sem o peso excessivo do que já passou.