O ALFAIATE DOS CREPÚSCULOS
Havia um homem que não costurava tecidos, mas as nuances da luz que sobrava do dia, aquelas cores fugitivas que insistem em brilhar antes que o breu tome conta de tudo. Ele sentava-se à janela com uma agulha feita de silêncio e uma linha invisível, tingida pelo último raio de sol que batia no parapeito. Claudio observava fascinado como aquele artesão unia o laranja vibrante das promessas ao violeta profundo das despedidas, criando um manto translúcido que cobria os telhados da cidade antes que a primeira estrela ousasse aparecer no firmamento. Escrever, para aquele alfaiate de instantes, era como alinhavar a saudade diretamente no peito da tarde, garantindo que o escuro da noite não chegasse sem antes deixar um rastro de beleza que justificasse o dia que se ia.
Ele sabia, com a sabedoria de quem já viu mil ocasos, que o mundo precisa desesperadamente de abrigos feitos de poesia, pois o frio da realidade bruta às vezes sopra muito mais forte do que a alma pode suportar sem um verso que a proteja. Suas mãos, marcadas pelo manuseio das sombras e das luzes, moviam-se com a precisão de um maestro, transformando o ocaso em um espetáculo de texturas.
Cada ponto dado na escrivaninha do horizonte era um lembrete de que a luz nunca morre de fato; ela apenas se recolhe para ser tecida novamente em uma nova manhã, mas é no crepúsculo, sob o cuidado desse alfaiate paciente, que ela revela sua face mais mística e generosa, envolvendo a humanidade em um abraço de seda e melancolia!...