UMA PEQUENA LOJA
Havia uma pequena loja, espremida entre um café moderno e uma sapataria ruidosa, onde o tempo parecia ter decidido tirar uma sexta prolongada. O dono, um homem de gestos lentos e óculos na ponta do nariz, não vendia apenas livros usados; ele negociava sonhos que as pessoas haviam deixado para trás. Marília gostava de perder as horas ali, folheando páginas amareladas que guardavam, além do texto impresso, anotações à margem e flores secas esquecidas por leitores de outra era. Cada volume era um fragmento de uma vida que já não existia mais, um eco de uma emoção que alguém, um dia, considerou importante o suficiente para sublinhar.
O Proprietário da loja era um guardião da humanidade. Em um mundo que descarta o ontem com a mesma velocidade com que consome o hoje, aquele lugar era um santuário da permanência. As prateleiras não sustentavam apenas papel e tinta, mas o peso de todas as perguntas que ainda não encontraram resposta.
Ao sair de lá com um livro sob o braço, Marília sentia que estava adotando uma memória alheia, prometendo ao antigo dono que aquela história continuaria viva, pulsando em um novo par de mãos, sob uma nova luz de abajur, enquanto o mundo lá fora continuava sua corrida frenética em direção ao nada!...