O MENINO QUE GUARDAVA VENTOS
No vilarejo de Riacho Doce, todos achavam que o pequeno Lucas era meio avoado. Ele passava o dia correndo pelas colinas com potes de vidro vazios debaixo do braço. Um dia, o avô, curioso, perguntou:
— O que você tanto caça nesses potes, meu filho?
— Estou guardando os ventos, vô! — respondeu o menino com os olhos brilhando. — O vento da manhã tem cheiro de café; o da tarde tem cheiro de terra molhada; e o da noite tem som de grilo.
O avô riu, mas anos depois, quando Lucas já era um homem da cidade grande, o velho adoeceu. Lucas voltou para a aldeia e encontrou, no sótão da casa, um dos seus velhos potes. Ao abrir a tampa, sentiu um sopro fresco no rosto e, por um segundo, voltou a ter oito anos. Percebeu que o avô é quem tinha guardado o pote todos aqueles anos. O velho sabia que, um dia, o neto precisaria daquele "vento de infância" para se lembrar de quem realmente era.