O CALÍGRAFO DAS ÁGUAS
À beira de um lago que refletia as cores do impossível, vivia um mestre que não usava papel, mas a superfície líquida para escrever poemas que duravam apenas um instante. Ele usava um pincel feito de juncos e água da própria fonte, desenhando ideogramas de paz que as ondas levavam para as profundezas assim que eram concluídos. Claudio observava fascinado como aquela escrita efêmera parecia comunicar-se com os peixes e com as raízes das árvores, espalhando uma poesia que não precisava de registros para ser eterna. Escrever na água era, para esse calígrafo, o exercício máximo do desapego, a arte de dizer o essencial sem a vaidade de querer durar.
Ele sabia que a fixidez muitas vezes mata o sentido, e que a beleza mais pura é aquela que aceita a sua própria transitoriedade. Suas mãos moviam-se com o ritmo das marés, desenhando versos que falavam da fluidez da vida e da necessidade de deixar ir o que já não nos serve. Ele ensinava que o registro mais importante não é o que fica no papel, mas o que penetra no espírito e transforma o modo como sentimos o mundo.
Cada traço que desaparecia na superfície do lago era uma lição de humildade. Ele não buscava a fama dos monumentos, mas a glória da influência invisível, sabendo que as palavras escritas na água acabam por se tornar parte da chuva que molha o solo e alimenta a vida. Ele era o mestre da impermanência, provando que a poesia mais profunda é aquela que se mistura à natureza e se torna, ela mesma, o próprio fluxo de tudo o que existe!...
Autoria: Lucas Louis.