"Existem notas que a gente só consegue tocar quando a alma está em silêncio,
e o coração aceita que toda sombra também faz parte da beleza."
PÁGINAS DE LUZ E SOMBRA.
O piano repousa na penumbra da sala, as teclas brancas e pretas como as páginas de uma vida que aprendi a ler no silêncio. Muita gente teme a mudez da noite, foge do encontro consigo mesmo por medo do que a memória possa sussurrar. Eu, pelo contrário, persigo esse estado. Meu silêncio nunca foi vazio; ele é povoado por uma melancolia doce, um eco de tudo o que me trouxe até aqui.
Sentado diante do instrumento, sinto que a vida não é feita apenas de acordes maiores e alegres. Há as notas menores, os dias de neblina e as passagens lentas. Mas não temo esses momentos, pois é na fragilidade do escuro que a nossa essência busca o que tem de mais bonito e coloca de volta em nossos pensamentos. Recordo, com um sorriso, até os amores da adolescência, vividos com uma intensidade que hoje marca presença em minhas poesias e no meu caminhar. Foi ali, muito antes da medicina, que entendi que amar é curar e que cuidar do outro exige a entrega total da alma.
Na minha jornada, aprendi que ser alguém que cuida vai muito além de entregar um diagnóstico. Diante de quem está frágil, busco no meu silêncio a força para oferecer palavras que devolvam as cores ao mundo. É preciso mostrar que a vida ainda existe na forma do sol, da chuva e das lembranças, e que nada está perdido se a fé permanece acesa. Às vezes, o diagnóstico pode ser triste, mas a alma precisa ouvir que o mundo ainda não desistiu dela.
É diante do piano que me encontro forte para lembrar que tudo o que hoje parece nublado ainda pode virar um dia lindo de luz. A medicina busca a cura, mas é no silêncio da alma e nas mãos de Deus que se encontra o ponto final e, muitas vezes, o mais belo recomeço. Afinal, por baixo de qualquer tristeza, sempre existe um sorriso esperando para ser vivido com ternura.
— Tenha fé a luz ainda não apagou!...

Autoria: Lucas Louis.