O CANTO DO CORVO NEGRO
Ele pousou na janela da alma,
Com penas negras como o nanquim,
Roubou-me o resto de toda a calma,
E anunciou o princípio do fim.
Olhos de ônix que tudo percebem,
O brilho oculto de cada pecado,
Enquanto as sombras a noite bebem,
Ele observa o meu fado traçado.
Sua voz é o ranger de uma velha porta,
O grito seco de quem já partiu,
Traz o recado da esperança morta,
Que o sol de ontem jamais assistiu.
Não adianta expulsar o visitante,
Ele conhece os vãos da mansão,
É um fantasma, um ser constante,
Que faz ninho dentro da percepção.
As árvores curvam-se ao seu comando,
Como súditos de um rei sem coroa,
E o mundo, em volta, vai definhando,
Enquanto a asa do medo sobrevoa.
Fica comigo, ó pássaro mudo,
Pois tua presença me faz entender,
Que a sombra é o manto que cobre tudo,
E a luz é o erro de quem quer viver.

Autoria: Lucas Louis.