HUMANIDADE EM SILÊNCIO
Sempre entendi a medicina como a arte do encontro, do toque e da cura. Como cirurgião, não posso negar os milagres da modernidade: hoje, operamos através de pequenas aberturas, navegamos com precisão milimétrica e devolvemos qualidade de vida a pacientes que, há poucas décadas, não teriam as mesmas chances. A robótica e a tecnologia são, dentro do hospital, aliadas indispensáveis. No entanto, quando cruzo o corredor e abro a porta do meu consultório, encontro um fenômeno que nenhum bisturi é capaz de consertar: o silêncio absoluto de uma sala superlotada.
Antigamente, eu ouvia o burburinho vindo da recepção antes mesmo de sair da sala. Eram risadas, trocas de receitas, conversas sobre o tempo, sobre os filhos ou sobre o preço das coisas. Havia vida ali. Hoje, o cenário é de um isolamento silencioso. Estão todos ali, de corpo presente, mas com as almas capturadas pelo brilho azulado das telas de celulares e tablets. O diálogo saudável tornou-se invisível. Ninguém se olha, ninguém se reconhece no outro. Sinto-me, por vezes, dentro de uma ala de hospital silenciosa, quando na verdade estou em um ambiente que deveria pulsar convivência.
Como pai, essa cena me persegue e me traz uma preocupação genuína: que mundo meus filhos herdarão? Estamos caminhando para uma era onde é mais divertido e confortável conversar com um robô que nos serve café e responde perguntas programadas do que com um amigo de carne e osso. A tecnologia em casa é fascinante, eu admito. Ela nos diz onde todos estão e nos atende com uma cortesia mecânica que está se tornando rara entre os humanos. Mas o perigo mora na substituição. Estamos trocando a simpatia do ser humano pela eficiência fria das máquinas e, logo, muitos ficarão sem seus empregos e sem seus afetos.
Esse vazio que estamos criando deliberadamente tem um custo alto para a saúde. Como médico, vejo o aumento alarmante da depressão e da ansiedade, males alimentados por esse isolamento digital. O ser humano está se distanciando de sua própria origem social. Até mesmo aqui, no Recanto das Letras, percebo essa frieza: poetas que se fecham em seus próprios mundos, comentando sempre as mesmas pessoas, ignorando o novo, o carinho gratuito que nasce de uma nova amizade. Quem se fecha assim, acaba sozinho em um mundo que diminui a cada dia.
A tecnologia deve ser ferramenta de auxílio, nunca o nosso destino final. Eu não quero que o melhor amigo dos meus filhos seja um algoritmo que concorda com tudo o que eles dizem. Quero que eles tenham pessoas reais para brincar, conversar e até discutir. Quero que aprendam que o contraditório, quando respeitoso, é o que nos faz crescer.
Nossa saúde mental e espiritual será a primeira a cobrar a conta desse distanciamento. O vazio adoece. A conexão Wi-Fi jamais substituirá o calor de um aperto de mão ou a vibração de uma voz humana. Não espere que a voz do próximo seja calada definitivamente pela tecnologia para começar a dar valor ao diálogo.
Se eu puder deixar um conselho, como médico e como amigo, é este: abrace hoje. Dê um bom dia ao desconhecido. Converse com seu vizinho. Saia da tela e entre na vida real. São essas pequenas frestas de humanidade que impedirão o mundo de cair em uma falência emocional completa. Ainda é tempo de desligarmos as telas para, finalmente, reconectarmos nossos corações. Que Deus esteja com todos nós.
— Esta crônica nasce de uma observação constante e preocupante no meu dia a dia. Como médico, vejo o avanço tecnológico salvar vidas dentro dos centros cirúrgicos, mas, como observador do comportamento humano, vejo essa mesma tecnologia silenciar salas de espera e distanciar famílias. Escrevi estas linhas não para condenar o progresso, mas para nos lembrar de que a nossa maior riqueza ainda é — e sempre será — a conexão humana, o olhar nos olhos e o carinho que nenhum robô consegue replicar. Que possamos usar as máquinas, mas nunca permitir que elas nos tornem máquinas.

Autoria: Lucas Louis.