"Neste Martelo Agalopado, os versos de dez sílabas dão
o tom de uma história marcada pelo café e pela eternidade."
O CAFÉ QUE NOS TRAZ LEMBRANÇA
O café traz o cheiro do passado,
Dessa chama que o tempo vai consumir,
O seu nome eu não ouso mais pedir,
Pois o peito ainda vive angustiado.
Seu destino ao meu foi amarrado,
Numa trilha que a vida nos traçou,
Onde o fogo do amor não se apagou,
Pois em cada detalhe posso ver,
Nesta gota de um forte café ter,
Que o tempo em rima transformou.
A saudade caminha na estrada,
Vigiando meus passos pelo chão,
Sua imagem não sai do coração,
Pela força da história registrada.
Sua blusa de cor ficou molhada,
Era prova de afeto e de ternura,
Hoje o mundo perdeu a cor mais pura,
Ficou preto e branco o caminhar,
Pois não canso jamais de procurar,
Tua vida de sombra e de amargura.
Tudo era perfeito e colorido,
No enredo que o mundo nos escreveu,
Mas o tempo passou e logo venceu,
Deixando esse rastro dolorido.
O cordel por nós dois construído,
Virou verso de prosa e de paixão,
Cicatriz que marcou a imensidão,
De um momento que não se apagará,
Pois o meu pensamento firme está,
Nessa dor que sufoca o coração.
O vapor que se eleva de uma xícara,
Desenha o teu rosto no ambiente,
Um abraço que a alma ainda sente,
Nessa falta que o peito logo encara.
A distância de nós é sombra rara,
Pois a mente insiste em te trazer,
No silêncio que o dia faz nascer,
Vou buscando teu rastro na fumaça,
Toda a dor que por dentro de mim passa,
É a força que me faz viver.
Você pode não estar mais neste mundo,
Mas o fogo que o peito alimentou,
Em ferida profunda se tornou,
Nesse laço de amor que é tão profundo.
Vou vivendo esse sonho de um segundo,
Onde a gente ainda pode se encontrar,
Sinto o gosto do café a passar,
E o perfume que o vento traz de volta,
Minha alma do corpo logo solta,
Só pra ver sua imagem retornar.
Nas manhãs de outono o vento esfria,
Busco o bule no fogo a esquentar,
Pois tecer a lembrança é o cantar,
No compasso que traz melancolia.
O moer desse grão é a nostalgia,
Que deságua na mesa do viver,
Cada gole me faz compreender,
Que o destino foi mestre em nos separar,
Mas o tempo não há de interceptar,
O amor que me faz só florescer.
Se o relógio avança sem piedade,
Vou colhendo os pedaços que são seus,
Entre as preces antigas feitas a Deus,
Para dar um alento à vontade.
O café é o espelho da verdade,
Que o amargo da ausência destila em mim,
Uma saga que nunca terá um fim,
Pois a alma não teme a escuridão,
Guardarei o calor da nossa união,
Como o brilho de um belo estopim.
Quantas vezes a noite me vê desperto,
Com os olhos fixados na imensidão,
Escutando o compasso do coração,
Nesse quarto vazio e tão deserto.
Eu queria você aqui bem perto,
Partilhando o silêncio que a noite traz,
Mas a vida roubou minha doce paz,
Deixando a lembrança no meu altar,
Onde o bule não para de fumegar,
E o compasso do tempo desfaz.
No balanço das ondas do pensamento,
Navego nas águas da recordação,
Sua voz ainda é a minha canção,
Que me livra por hora do sofrimento.
Mesmo que eu padeça no isolamento,
Onde a dor da saudade é o meu troféu,
Olho as nuvens que passam no grande céu,
E imagino teu rosto a me sorrir,
Pois o fio que o mundo tentou partir,
Se transforma no canto do menestrel.
Bebo o resto do sonho que ficou,
No amargo que a xícara encerra,
Sou o rastro de paz nessa tal guerra,
Que a saudade no peito aqui deixou.
Toda a vida que a gente vivenciou,
É o livro que eu sigo sempre a ler,
Pois amar é o modo de não morrer,
E manter tua luz em cada canto,
Transformando em poesia o meu pranto,
Nesse dom que me faz sobreviver.

Autoria: Lucas Louis.
França/Paris: 04.06.26