O RELÓGIO QUE NÃO MARCAVA AS HORAS
Seu Orlando era conhecido no bairro por consertar tudo, menos o tempo. Em sua oficina empoeirada, um relógio de parede, de madeira escura, chamava a atenção. Seus ponteiros nunca se moviam, mas, estranhamente, ele badalava em momentos imprevistos.
Certo dia, um jovem apressado entrou na loja:
— Seu Orlando, quanto custa esse relógio parado? Quero para decorar minha sala moderna.
O velho sorriu por trás dos óculos grossos:
— Esse não está à venda, rapaz. Ele não marca as horas, ele marca os momentos.
O jovem riu, achando que era loucura de velho. Mas, naquele exato segundo, o relógio badalou três vezes, alto e claro. O rapaz olhou para o celular: não era hora cheia. O celular tocou. Era sua esposa avisando que o primeiro filho deles acabara de nascer, três semanas antes do esperado. O jovem empalideceu e saiu correndo. Orlando apenas deu corda no silêncio. No mundo da pressa, o relógio só despertava quando a vida realmente acontecia.

Autoria: Lucas Louis.