O BANQUETE DO ABISMO
Senta-te à mesa do meu desespero,
Onde a taça transborda solidão,
Não há disfarce, nem há tempero,
Para a amargura que habita o chão.
Servimos o luto em pratos de prata,
E o vinho é o sangue de um sonho antigo,
A luz das velas, trêmula e ingrata,
É o único ser que ainda está comigo.
Lá fora o mundo ruge em sua pressa,
Buscando sentidos que não encontrará,
Mas aqui dentro a vida não começa,
E o que findou, jamais voltará.
As sombras dançam nas paredes nuas,
Contando segredos que o dia esconde,
Vozes perdidas nas curvas das ruas,
A quem o silêncio jamais responde.
Somos os filhos da noite eterna,
Cativos de um fado que nos escolheu,
A dor é a chama da nossa lanterna,
No labirinto que o medo teceu.
Brinda comigo ao vazio profundo,
Ao belo horror de saber-se só,
Pois quando o sono cobrir este mundo,
Voltaremos todos a ser apenas pó.

Autoria: Lucas Louis.