A ÚLTIMA CRÔNICA NO CAFÉ CENTRAL
Heitor sentava-se na mesa do canto do Café Central todos os dias, exatamente às quatro da tarde. Munido de um caderno de capa de couro e uma caneta-tinteiro, ele observava o vaivém das pessoas. Ele era o cronista invisível da cidade; registrava o romance secreto dos jovens na mesa ao lado, a pressa do homem de terno e a doçura da senhora que alimentava os pombos na praça.
Certa terça-feira, o café anunciou que fecharia as portas para sempre devido à modernização do centro. Heitor sentiu um aperto no peito. Naquela última tarde, em vez de apenas observar, ele se levantou. Mesa por mesa, ele leu em voz alta os fragmentos das vidas que havia eternizado em suas páginas. Os clientes, surpresos, choraram e sorriram ao se verem pelos olhos do cronista. O café fechou, mas aquela comunidade descobriu que, graças às palavras de Heitor, suas pequenas rotinas tinham a grandeza de uma obra de arte.

Autoria: Lucas Louis