MOTE
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida...
Preto: Lucas Louis Neville Gouthier
Cinza: Florbela Espanca
DESERTO DE INCERTEZAS
Neste deserto de incertezas e dor,
Onde a tristeza faz a sua morada,
Caminho só por esta longa estrada,
Buscando a sombra de um antigo amor.
Não tenho o brilho nem o antigo ardor,
Sigo no escuro com a fé partida,
Minha esperança jaz adormecida,
Pois o destino me negou o cais,
E entre os lamentos dos meus próprios ais,
Eu sou a que no mundo anda perdida.
Olho o horizonte e não encontro o porto,
O vento sopra e o meu barco murcha,
Nenhum farol clareia a minha bruxa,
Neste oceano de silêncio morto.
Nenhum carinho me trará conforto,
Nenhum abraço mudará meu porte,
Que o vento frio que sopra do norte
Apague os rastros que deixei no chão,
E na agonia desta solidão,
Eu sou a que na vida não tem norte.
Vago acordada pelas madrugadas,
Construindo castelos feitos de vento,
Alimentando o meu próprio tormento,
Nas noites frias e desabitadas.
As minhas asas foram arrancadas,
Pelo chicote de um destino forte,
Mas sigo firme esperando a morte,
Que há de levar toda esta amargura,
Por ser parente da ilusão mais pura,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte.
O peito chora o que ninguém consegue ver,
Uma ferida que não cicatriza,
A alma sangra e o pranto desliza,
No próprio ato de tentar viver.
Não há remédio que me faça erguer,
Nesta jornada que foi prometida,
A minha história chora desvalida,
Carrego o peso do meu próprio lenho,
E neste pranto que em meu peito tenho,
Sou a crucificada... a dolorida...

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier