O RELÓGIO DA PAREDE AMARELA
Havia um compasso persistente na sala de estar, um "tique-taque" que parecia ditar não apenas as horas, mas o ritmo dos pensamentos de quem ali habitava. O relógio, de um carvalho já escurecido pelo tempo, contrastava com a parede amarela, desbotada pelo sol das tardes de verão. Havia algo de sagrado na forma como o ponteiro dos segundos hesitava antes de avançar, como se pedisse permissão para levar embora mais um fragmento de existência. Naquela sala, as memórias não eram guardadas em álbuns, mas suspensas no ar, vibrando a cada badalada das horas cheias. Era uma crônica escrita pelo próprio tempo, onde o passado e o presente se sentavam à mesa para tomar um café morno, sem pressa de partir.
Mas o relógio tinha seus caprichos. Às vezes, no silêncio da madrugada, o som mudava, tornando-se mais grave, como o bater de um coração cansado. Era nesses momentos que as paredes amarelas pareciam sussurrar histórias de quem já passou por aquele corredor, de passos que não ecoam mais e de risos que ficaram presos nas frestas da madeira. O carvalho, outrora uma árvore imponente, agora servia de guardião para os segredos da casa, segurando as horas com a firmeza de quem sabe que o tempo é o senhor de todas as coisas, mas a memória é a sua única rebeldia permitida.
Ao dar a corda semanal, o senhoril cumpria com a solenidade de um sacerdote, ele sentia a resistência da mola, o esforço mecânico para manter a vida pulsando por mais sete dias. Era um pacto renovado. Enquanto o relógio batesse, a casa estaria viva; enquanto a parede amarela refletisse a luz do fim de tarde, haveria história para contar. O objeto não era apenas uma máquina de engrenagens e pesos, mas um âncora que impedia a família de navegar sem rumo no oceano dos dias esquecidos!...

Autoria: Lucas Louis.