A SAUDADE SORRI
Existe um estágio de amadurecimento emocional onde a saudade deixa de ser uma ferida aberta e se transforma em uma visita bem-vinda na calada da noite. Lembrar de um amor que já fez parte da nossa caminhada, e perceber que essa lembrança não traz mais dor ou amargura, é um dos sentimentos mais libertadores que o tempo nos concede. Nem toda saudade dói; algumas funcionam como aquele casaco antigo e confortável que encontramos no fundo do armário e que, ao ser vestido, nos aquece com o perfume de dias felizes. Olhar para trás e conseguir sorrir ao lembrar de um olhar, de uma piada interna ou de uma promessa que, embora não tenha se cumprido para sempre, foi absolutamente real e intensa enquanto durou, é a prova viva de que o amor valeu a pena.
Esse sentimento gostoso de recordar é como folhear um álbum de fotografias antigas com o coração pacificado e grato pela oportunidade de ter vivido aquela história. O término de um ciclo não anula a beleza dos capítulos que foram bonitos, e entender isso nos permite guardar o que foi bom em um altar sagrado da memória, sem ressentimentos ou melancolia. A pessoa que amamos no passado foi o espelho onde aprendemos a nos enxergar melhor, a descobrir nossas próprias forças e a entender o que realmente importa em um abraço. Aquela cumplicidade que um dia dividimos não se perdeu no tempo, ela apenas mudou de forma, transformando-se em uma bagagem afetiva rica, leve e cheia de ensinamentos que moldaram quem somos hoje na arte de amar.
Precisamos resgatar essa visão mais generosa sobre os afetos que já passaram pelas nossas vidas, desmistificando a ideia de que o fim de um relacionamento representa um fracasso absoluto. Fracasso seria passar pela vida sem a coragem de se entregar, de partilhar os dias e de construir memórias ao lado de alguém. Essa saudade que sorri em vez de chorar é o registro poético de que fomos humanos, vulneráveis e intensos na nossa capacidade de conexão. Quando essa lembrança bonita surge no meio de uma tarde qualquer, ela não vem para nos prender ao passado ou para nos fazer desejar o retorno daquela época, mas sim para nos lembrar de que fomos imensamente felizes ali e de que o nosso coração continua pronto, resiliente e aberto para as infinitas surpresas que a vida ainda tem para oferecer.

Lucas Louis Neville Gouthier