Dr. Lucas Louis Neville Gouthier
Só quem ama tem disposição de ir além da superfície.
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"O verdadeiro amor não se explica pelas palavras que dizemos,

mas pelos silêncios que conseguimos compartilhar sem medo."

 

O ENCONTRO NA ESTAÇÃO 

 

Helena acreditava que a vida funcionava como um relógio de corda: tudo tinha um tempo exato para acontecer, e atrasos não eram permitidos. Todas as terças-feiras, ela pegava o trem das 17h10 na Estação da Luz com destino ao interior, onde visitava sua irmã. Ela sentava-se sempre na mesma plataforma, abria seu livro e esperava o som do apito mecânico.

 

Em uma dessas tardes de outono, enquanto o vento soprava as folhas secas pelos trilhos de ferro, o trem atrasou. Não foram cinco ou dez minutos, mas uma hora inteira devido a uma falha na Linha Central.

 

Irritada com a quebra de sua rotina perfeita, Helena fechou o livro com força. Foi nesse exato momento de frustração que ela reparou no homem sentado no banco de madeira logo à frente. Ele segurava um bloco de desenho e, com um pedaço de carvão, esboçava os contornos da arquitetura antiga da estação.

 

O homem parecia não se importar com o atraso, com o barulho dos passageiros reclamando ou com o tempo que passava. Ele estava completamente imerso no seu próprio mundo de traços e sombras.

 

Curiosa, Helena mudou de lugar sutilmente para conseguir ver o desenho. O papel mostrava a estação, os trilhos que sumiam no horizonte e, no canto esquerdo da folha, a silhueta de uma mulher lendo um livro. Era ela mesma. Os detalhes de sua expressão, o casaco longo e a forma como ela segurava as páginas haviam sido capturados com uma delicadeza impressionante.

 

Sentindo-se descoberta, ela pigarreou. O homem ergueu os olhos e deu um sorriso tímido, fechando o caderno rapidamente.

 

— Desculpe — disse ele, a voz calma contrastando com a agitação do lugar. — Eu sou o Arthur. É que você parecia a única coisa verdadeiramente em paz nesta estação hoje, antes do trem atrasar.

 

— Eu não estava em paz, Arthur. Eu estava apenas fingindo — Helena respondeu, mas o tom de irritação havia sumido de sua voz. — E agora estou brava porque odeio atrasos.

 

Arthur riu, um som leve que pareceu diminuir o peso do teto de ferro da estação.
— O tempo é uma convenção estranha, não acha? Às vezes, um atraso de sessenta minutos salva a gente de uma vida inteira de caminhos errados.

 

Eles começaram a conversar. Helena descobriu que Arthur era um ilustrador que viajava pelo país em busca de paisagens esquecidas. Arthur descobriu que Helena revisava textos acadêmicos e que sua vida era guiada por regras rígidas que ela mesma havia criado para se proteger do mundo.

 

À medida que os minutos passavam, a pressa de Helena simplesmente evaporou. O trem das 17h10 finalmente apontou na plataforma, soltando fumaça e fazendo o chão vibrar. Os passageiros correram em direção às portas, mas Helena e Arthur continuaram sentados no banco de madeira.

 

— Esse é o seu trem — lembrou Arthur, olhando para ela com um mistério nos olhos.

 

Helena olhou para o relógio da estação, depois para o livro em suas mãos e, finalmente, para o caderno de Arthur. Pela primeira vez na vida, ela decidiu que o relógio podia esperar. O amor, afinal, não avisa o horário de chegada.

 

— Minha irmã pode me esperar para o jantar de amanhã — disse ela, sorrindo. — E eu ainda quero ver o resto dos desenhos desse caderno.

 

Arthur abriu o bloco novamente na página em branco e entregou o pedaço de carvão para ela.
— Então vamos começar a desenhar o próximo capítulo juntos.

 

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier

Lucas Louis Neville Gouthier
Enviado por Lucas Louis Neville Gouthier em 01/10/2026
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