Dr. Lucas Louis Neville Gouthier
Só quem ama tem disposição de ir além da superfície.
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Há pouco mais de dez anos, o chão se abriu sob os meus pés

e Deus colocou um anjo em meu caminho.

Esta crônica é o meu presente público à minha fiel irmã,

Dra. Iolanda Pinheiro.

 

LAÇOS DE OUTRAS VIDAS:

ONDE O TEMPO ETERNIZA A AMIZADE!

 

É nos momentos de maior vulnerabilidade que descobrimos quem realmente caminha ao nosso lado. Quando tudo prospera, é fácil cercar-se de presenças, receber mensagens e compartilhar de uma realidade farta. No entanto, quando a vida nos pressiona, quando carecemos de amparo ou simplesmente de alguém que permaneça, muitos desaparecem. É justamente sob o peso dessas ausências que passamos a mensurar o real valor de quem escolheu ficar.

 

Como sempre vivi cercado pela estabilidade financeira de uma família provida de tudo o que o dinheiro pode comprar, o mundo sempre me pareceu plenamente acessível. Contudo, há cerca de dez anos, o destino me preparou a prova definitiva para que eu entendesse o verdadeiro significado da amizade. Afinal, é muito simples ser amigo de quem tem tudo a oferecer, quando estar junto é sinônimo de leveza, festas e sorrisos fáceis.

 

A vida nos ensina que a existência não se resume ao dinheiro e que, muitas vezes, as pessoas que dividem os nossos dias de glória não são as mesmas que nos estenderão a mão na adversidade. Para alguns, o que aconteceu pode parecer um detalhe menor, mas, para mim, representou um divisor de águas. Quando vi o chão se abrir sob os meus pés, ela me amparou. Com extrema doçura, disse-me: "Vem, estou aqui. Segura a minha mão e não tema a queda. A vida molda algumas armadilhas, mas quem tem ao lado alguém que conhece a essência do amor verdadeiro jamais é abandonado. Levanta-te, pois ainda temos muito a aprender juntos. Estou disposta a trilhar este caminho contigo, como uma amiga sincera e eternamente presente."

 

Tudo isso poderia soar como mera licença poética, mas asseguro: é a mais pura expressão da realidade. Certo dia, movido pelo entusiasmo de quem iniciava no universo literário e desconhecia as suas regras rígidas, publiquei um acróstico com o meu próprio nome. Achei o gesto bonito, mas fui imediatamente alvo de críticas severas sob o argumento de que não se deve homenagear a si mesmo. Hoje, com a maturidade atual, eu diria: "Compreendo perfeitamente que expressar o amor-próprio é um direito legítimo e que a beleza de um texto reside na sinceridade de quem o escreve, independentemente das críticas alheias." Seria fácil reagir assim, mas, na época, faltaram-me voz e repertório para me defender. Para piorar, quem eu julgava que me protegeria — alguém que dominava a arte da escrita — calou-se. Senti-me completamente desamparado.

 

Mas o Criador não abandona os seus. Foi assim que Ele colocou um anjo de alma impecável em meu caminho. Ela é deslumbrante como advogada, como amiga, como irmã, como escritora e em qualquer papel que decida assumir. Diante daquela hostilidade, ela ergueu a voz e me sustentou. Com a sua brilhante capacidade de argumentação, posicionou-se a meu favor, encarou os críticos e declarou que a poesia é livre; se há amor-próprio, dedicar um acróstico a si mesmo é o primeiro e mais legítimo ato de amor, pois é preciso amar a si para, então, saber amar o próximo.

 

Naquele instante, o mundo voltou a sorrir para mim e contemplei a pureza do afeto manifesto. Ela não precisava intervir; poderia ter optado pela omissão, assim como fez a outra pessoa. No entanto, defendeu-me com desvelo, provando que o amor real não busca interesses nem espera contrapartidas. Dali nasceu uma amizade desinteressada, um elo raro que o tempo só fez madurar. Com o tempo, compreendemos que o nosso afeto não precisava de caminhos convencionais para ser pleno; ele se elevou e encontrou a sua verdadeira morada na fraternidade. Aquele dia selou o nosso destino. Desde então, ela se tornou a minha eterna irmã, a quem devoto a minha alma e de quem jamais irei me distanciar. Ela me ensinou que o amor mais nobre não prescinde de laços românticos: basta ser sincero, gratuito e, como ela mesma costuma dizer, algo que parece vir de outras vidas.

 

Passaram-se pouco mais de dez anos de convivência, e cá estamos nós, desfrutando desta profunda admiração mútua. Ela transformou o meu olhar sobre o mundo e moldou a minha identidade profissional; sei o quanto ela se orgulha de me ver dedicado ao meu trabalho, e é por influência direta desse afeto que hoje modulo o atendimento aos meus pacientes com profundo carinho e humanidade, sem nada esperar em troca. Talvez ela sequer dimensione a magnitude do bem que me causou e o quão vital é no meu cotidiano. Tê-la é uma benção constante. Sou grato a Deus e à sua existência.

 

Portanto, nunca negligencie quem lhe sustentou nas tempestades. Lembre-se de quem ouviu os seus desabafos sem emitir julgamentos, de quem ofereceu auxílio genuíno e de quem encontrou maneiras de se fazer presente na sua dor. Essas pessoas demandam valorização contínua, e não apenas lembranças oportunas quando a necessidade aperta.

 

A vida é dinâmica e os ciclos se renovam. Mesmo nos dias mais exaustivos do cotidiano, quando o cansaço parece nos alcançar, o carinho permanece intacto. Retribua o afeto, marque presença e não permita que a correria apague a memória de quem esteve ali. Ao término de tudo, as relações cruciais não são as que celebram as nossas vitórias, mas as que permanecem intactas quando o cenário desaba. Valorize quem ficou. Eles compõem o cerne da sua história.

 

Hoje, dedico estas linhas à minha fiel irmã, Dra. Iolanda Pinheiro, que soube ser abrigo quando o meu mundo parecia desmoronar. Ela me reergueu e demonstrou que o amor consiste na entrega generosa. A você, minha querida irmã, ofereço o meu mais profundo respeito e terna admiração. O mundo pode tentar me sufocar, mas nada será capaz de obscurecer o que construímos. Nossa cumplicidade nasceu do meu dia mais cinzento. Por isso, reitero: a tristeza nem sempre redunda em solidão; por vezes, é no ápice do sofrimento que alguém se faz presente e eterniza o seu nome na nossa trajetória. Busco diariamente seguir os seus preceitos e ser, ao menos, o reflexo da grandeza que você demonstrou.

 

Obrigado por existir em minha vida. Te amo, Belle.

De seu eterno irmão francês!...

Lucas Louis Neville Gouthier
Enviado por Lucas Louis Neville Gouthier em 01/10/2026
Alterado em 04/10/2026
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