Há pouco mais de dez anos, o chão se abriu sob os meus pés
e Deus colocou um anjo em meu caminho.
Esta crônica é o meu presente público à minha fiel irmã,
Dra. Iolanda Pinheiro.
LAÇOS DE OUTRAS VIDAS:
ONDE O TEMPO ETERNIZA A AMIZADE!
É nos momentos de maior vulnerabilidade que descobrimos quem realmente caminha ao nosso lado. Quando tudo prospera, é fácil cercar-se de presenças, receber mensagens e compartilhar de uma realidade farta. No entanto, quando a vida nos pressiona, quando carecemos de amparo ou simplesmente de alguém que permaneça, muitos desaparecem. É justamente sob o peso dessas ausências que passamos a mensurar o real valor de quem escolheu ficar.
Como sempre vivi cercado pela estabilidade financeira de uma família provida de tudo o que o dinheiro pode comprar, o mundo sempre me pareceu plenamente acessível. Contudo, há cerca de dez anos, o destino me preparou a prova definitiva para que eu entendesse o verdadeiro significado da amizade. Afinal, é muito simples ser amigo de quem tem tudo a oferecer, quando estar junto é sinônimo de leveza, festas e sorrisos fáceis.
A vida nos ensina que a existência não se resume ao dinheiro e que, muitas vezes, as pessoas que dividem os nossos dias de glória não são as mesmas que nos estenderão a mão na adversidade. Para alguns, o que aconteceu pode parecer um detalhe menor, mas, para mim, representou um divisor de águas. Quando vi o chão se abrir sob os meus pés, ela me amparou. Com extrema doçura, disse-me: "Vem, estou aqui. Segura a minha mão e não tema a queda. A vida molda algumas armadilhas, mas quem tem ao lado alguém que conhece a essência do amor verdadeiro jamais é abandonado. Levanta-te, pois ainda temos muito a aprender juntos. Estou disposta a trilhar este caminho contigo, como uma amiga sincera e eternamente presente."
Tudo isso poderia soar como mera licença poética, mas asseguro: é a mais pura expressão da realidade. Certo dia, movido pelo entusiasmo de quem iniciava no universo literário e desconhecia as suas regras rígidas, publiquei um acróstico com o meu próprio nome. Achei o gesto bonito, mas fui imediatamente alvo de críticas severas sob o argumento de que não se deve homenagear a si mesmo. Hoje, com a maturidade atual, eu diria: "Compreendo perfeitamente que expressar o amor-próprio é um direito legítimo e que a beleza de um texto reside na sinceridade de quem o escreve, independentemente das críticas alheias." Seria fácil reagir assim, mas, na época, faltaram-me voz e repertório para me defender. Para piorar, quem eu julgava que me protegeria — alguém que dominava a arte da escrita — calou-se. Senti-me completamente desamparado.
Mas o Criador não abandona os seus. Foi assim que Ele colocou um anjo de alma impecável em meu caminho. Ela é deslumbrante como advogada, como amiga, como irmã, como escritora e em qualquer papel que decida assumir. Diante daquela hostilidade, ela ergueu a voz e me sustentou. Com a sua brilhante capacidade de argumentação, posicionou-se a meu favor, encarou os críticos e declarou que a poesia é livre; se há amor-próprio, dedicar um acróstico a si mesmo é o primeiro e mais legítimo ato de amor, pois é preciso amar a si para, então, saber amar o próximo.
Naquele instante, o mundo voltou a sorrir para mim e contemplei a pureza do afeto manifesto. Ela não precisava intervir; poderia ter optado pela omissão, assim como fez a outra pessoa. No entanto, defendeu-me com desvelo, provando que o amor real não busca interesses nem espera contrapartidas. Dali nasceu uma amizade desinteressada, um elo raro que o tempo só fez madurar. Com o tempo, compreendemos que o nosso afeto não precisava de caminhos convencionais para ser pleno; ele se elevou e encontrou a sua verdadeira morada na fraternidade. Aquele dia selou o nosso destino. Desde então, ela se tornou a minha eterna irmã, a quem devoto a minha alma e de quem jamais irei me distanciar. Ela me ensinou que o amor mais nobre não prescinde de laços românticos: basta ser sincero, gratuito e, como ela mesma costuma dizer, algo que parece vir de outras vidas.
Passaram-se pouco mais de dez anos de convivência, e cá estamos nós, desfrutando desta profunda admiração mútua. Ela transformou o meu olhar sobre o mundo e moldou a minha identidade profissional; sei o quanto ela se orgulha de me ver dedicado ao meu trabalho, e é por influência direta desse afeto que hoje modulo o atendimento aos meus pacientes com profundo carinho e humanidade, sem nada esperar em troca. Talvez ela sequer dimensione a magnitude do bem que me causou e o quão vital é no meu cotidiano. Tê-la é uma benção constante. Sou grato a Deus e à sua existência.
Portanto, nunca negligencie quem lhe sustentou nas tempestades. Lembre-se de quem ouviu os seus desabafos sem emitir julgamentos, de quem ofereceu auxílio genuíno e de quem encontrou maneiras de se fazer presente na sua dor. Essas pessoas demandam valorização contínua, e não apenas lembranças oportunas quando a necessidade aperta.
A vida é dinâmica e os ciclos se renovam. Mesmo nos dias mais exaustivos do cotidiano, quando o cansaço parece nos alcançar, o carinho permanece intacto. Retribua o afeto, marque presença e não permita que a correria apague a memória de quem esteve ali. Ao término de tudo, as relações cruciais não são as que celebram as nossas vitórias, mas as que permanecem intactas quando o cenário desaba. Valorize quem ficou. Eles compõem o cerne da sua história.
Hoje, dedico estas linhas à minha fiel irmã, Dra. Iolanda Pinheiro, que soube ser abrigo quando o meu mundo parecia desmoronar. Ela me reergueu e demonstrou que o amor consiste na entrega generosa. A você, minha querida irmã, ofereço o meu mais profundo respeito e terna admiração. O mundo pode tentar me sufocar, mas nada será capaz de obscurecer o que construímos. Nossa cumplicidade nasceu do meu dia mais cinzento. Por isso, reitero: a tristeza nem sempre redunda em solidão; por vezes, é no ápice do sofrimento que alguém se faz presente e eterniza o seu nome na nossa trajetória. Busco diariamente seguir os seus preceitos e ser, ao menos, o reflexo da grandeza que você demonstrou.
Obrigado por existir em minha vida. Te amo, Belle.
De seu eterno irmão francês!...