Dr. Lucas Louis Neville Gouthier
Só quem ama tem disposição de ir além da superfície.
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil
Textos

 

"As velhas mansões não são feitas apenas de pedra e madeira,

mas dos ecos de promessas que a morte não conseguiu apagar."

 

O RETRATO DE ELEONORA

 

O solar dos Alencastro erguia-se no topo de uma colina isolada, cercado por uma floresta de ciprestes que pareciam chorar sob a névoa constante da serra. Após a morte de seu último tio distante, Julian recebeu as chaves da propriedade com a missão de catalogar os bens antes que a casa fosse selada para sempre.

 

O interior do casarão era um labirinto de penumbra, veludo carcomido por traças e poeira que flutuava como fantasmas sob a luz fraca de sua lanterna. No final do grande corredor do segundo andar, trancada por uma pesada corrente de ferro, ficava a galeria de retratos da família.

 

Com muito esforço, Julian rompeu o cadeado enferrujado. As portas rangeram como um lamento. Nas paredes, pinturas a óleo de antepassados de rostos severos pareciam vigiar seus passos. No entanto, no centro da sala, coberto por um pesado lençol negro, estava o quadro principal.

 

Julian puxou o tecido. O impacto visual o fez dar um passo atrás.

 

Era o retrato em tamanho real de Eleonora, uma jovem da família que, segundo os diários antigos, havia desaparecido misteriosamente na noite de seu casamento, em 1892. Ela vestia um suntuoso vestido de noiva de renda branca, segurando um buquê de rosas vermelhas que pareciam vivas demais para uma pintura com mais de um século. Mas o que realmente perturbou Julian foram os olhos dela: duas pupilas castanhas tão profundas e expressivas que pareciam seguir cada movimento seu pela galeria.

 

Naquela noite, uma tempestade violenta desabou sobre a região. O vento uivava pelas frestas das janelas góticas, fazendo as chamas das velas dançarem nas paredes. Julian recolheu-se no antigo escritório, tentando ler os relatos da família, mas uma inquietação inexplicável o impedia de se concentrar.

 

Exatamente à meia-noite, o som de um piano ecoou pelo casarão.

 

Era uma melodia fúnebre, lenta, vinda do andar de cima. Julian sentiu o sangue congelar. Pegou um castiçal de prata e subiu as escadas de madeira que rangiam a cada passo. O som o levou direto para a galeria de retratos.

 

Ao abrir as portas, o piano silenciou. O ambiente estava imerso em um frio ártico. Julian caminhou até o centro da sala e ergueu a vela em direção ao quadro de Eleonora.

 

O coração de Julian quase parou. A tela estava vazia. O fundo escuro e a moldura dourada continuavam ali, mas a figura da noiva havia desaparecido por completo do tecido. No chão, logo abaixo da moldura vazia, repousava uma única rosa vermelha, fresca e orvalhada, cujo perfume adocicado e denso inundava a sala.

 

Julian ouviu o farfalhar de um vestido de seda arrastando-se pela poeira atrás dele.

 

Ele virou-se lentamente. Parada sob o arco da janela gótica, a luz dos relâmpagos iluminando sua silhueta pálida, estava Eleonora. O vestido de noiva estava perfeitamente limpo, e seus olhos reais tinham a mesma profundidade melancólica da pintura.

 

— Você veio devolver o que o tempo me roubou? — a voz dela era um sussurro frio que parecia ressoar dentro da mente de Julian, e não no ar.

 

Ela estendeu a mão direita, que ostentava uma aliança de ouro fosca. Julian, paralisado por uma mistura de terror e um fascínio hipnótico, percebeu que no bolso de seu próprio casaco estava o diário que ele encontrara no escritório — o diário do noivo de Eleonora, que revelava que ele a havia trancado em uma tumba secreta sob o solar por puro ciúme.

 

Julian, com as mãos trêmulas, estendeu o diário para a aparição.

 

No momento em que os dedos gélidos de Eleonora tocaram as páginas de papel velho, um sorriso de paz finalmente surgiu em seus lábios. A tempestade lá fora cessou abruptamente. Uma névoa branca envolveu o corpo da noiva, e ela desfez-se em poeira de prata diante dos olhos do rapaz.

 

Quando Julian olhou de volta para a parede, Eleonora estava novamente na tela, pintada em sua pose eterna. Mas o quadro havia mudado: ela já não segurava as rosas vermelhas, e sim o velho diário contra o peito, e em seu rosto de tinta, agora, havia a expressão suave de quem finalmente encontrara o descanso.

 

 Lucas Louis Neville Gouthier

Lucas Louis Neville Gouthier
Enviado por Lucas Louis Neville Gouthier em 09/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.