Dr. Lucas Louis Neville Gouthier
Só quem ama tem disposição de ir além da superfície.
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"A esperteza de quem vive na roça não se aprende nos livros,

mas na paciência de quem sabe ouvir o tempo e o silêncio da terra."

 

 

O CAUSO DO BODE ADIVINHO

 

Se tem uma coisa que o povo de São Gonçalo do Amarante gostava, era de uma boa aposta. Mas ninguém ali era mais viciado em jogo e em levar a melhor do que o coronel Teodoro, o homem mais rico e soberbo daquelas bandas. O coronel achava que sua inteligência era do tamanho da sua fortuna e que nenhum caipira dali seria capaz de passá-lo para trás.

 

Até que apareceu o Tião, um caboclo magro, que vivia na beira do rio e cuja única posse era um bode velho, manco e de pelo cinzento chamado Esticador.

 

Certo dia, o coronel Teodoro passava a cavalo pela estrada e viu Tião sentado na cerca, conversando com o bicho. O bode dava duas batidas com a pata no chão e Tião balançava a cabeça, como se estivesse entendendo tudo. Achando aquilo uma bobagem sem tamanho, o coronel parou o cavalo e zombou:

 

— Que prosa bonita é essa, Tião? Agora você deu para falar a língua dos bichos?

 

Tião ajeitou o chapéu de palha com calma, olhou para o coronel e respondeu:
— Falar a língua dele eu não falo não, coronel. Mas o Esticador aqui tem um dom que o senhor não ia acreditar. Ele é um bode adivinho. Sabe de tudo o que acontece e o que vai acontecer.

 

O coronel deu uma gargalhada que ecoou pelo vale.
— Um bode adivinho? Ora, Tião, não me faça rir! Isso é impossível. Quer apostar como isso é mentira? Se esse bode adivinhar o que eu estou pensando agora, eu te dou dez moedas de prata. Se ele errar, você me dá esse bode para eu fazer um churrasco.

 

Tião pensou um pouco, olhou para o Esticador e aceitou o desafio.
— Pois bem, coronel. Mas o bicho é tímido. O senhor tem que fazer uma pergunta sobre algo que o senhor tenha escondido.

 

O coronel, achando que ia ganhar o bicho de graça, enfiou a mão no bolso do paletó, fechou o punho ao redor de um objeto e desafiou:
— Muito bem. O que é que eu tenho escondido na minha mão direita agora?

 

Tião chegou perto do bode, puxou o bicho pela orelha e sussurrou algo. O Esticador olhou fixamente para o coronel, mastigou um pedaço de capim que estava na boca e deu três batidas fortes com a pata direita no chão de terra.

 

Tião sorriu e disse:
— Coronel, o Esticador está dizendo que o senhor tem três moedas de cobre antigas na mão.

 

O coronel Teodoro arregalou os olhos. Abriu a mão devagar e, para o seu próprio espanto, lá estavam exatamente as três moedas de cobre que ele havia pegado no troco da venda minutos antes. Ele entregou as dez moedas de prata para Tião, emburrado, e foi embora sem entender nada.

 

O que o coronel não sabia — e que Tião nunca contou para ninguém — era o segredo daquela esperteza. Tião conhecia o bicho que tinha. O Esticador tinha uma mania velha de bater a pata no chão toda vez que sentia cheiro de fumo de corda, e o coronel Teodoro sempre carregava um rolo de fumo fortíssimo no mesmo bolso onde guardava as moedas. Naquela tarde, o vento soprou o cheiro do fumo direto no focinho do bode, que bateu a pata três vezes por puro reflexo do vício. Tião só usou a coincidência a seu favor com a astúcia que Deus lhe deu.

 

O coronel passou o resto da vida tentando comprar o bode, oferecendo fortunas, mas Tião sempre respondia: "O Esticador não tem preço, coronel. Sabedoria de bicho a gente não vende, a gente respeita". E assim, o caipira e seu bode velho viveram em paz, rindo da soberba alheia.

 

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier 

Lucas Louis Neville Gouthier
Enviado por Lucas Louis Neville Gouthier em 12/10/2026
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