MOTE
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Preto: Lucas Louis Neville Gouthiet
Cinza: Luís de Camões
A FORMA DO DESEJO
Na noite fria de um claustro escuro,
Choro o fantasma que me consome,
Chamo em delírio o teu doce nome,
Pintando a tela de um sonho puro.
No teu sepulcro de mármore duro,
Minha agonia se faz morada,
E nesta busca desesperada,
Onde o teu ser no meu se mistura,
Pela potência da desventura,
Transforma-se o amador na cousa amada.
O mundo assiste com desconfiança
A essa comédia de erros humanos,
Onde os afetos engendram planos
E a vaidade se veste de esperança.
Quem ama tanto perde a balança,
Cria um teatro no próprio olhar,
Pois a Razão, ao nos desarmar,
Sabe que o homem se torna escravo
Do falso brilho de um ouro bravo,
Por virtude do muito imaginar.
O que há em mim é só o cansaço
De ser o Outro que não conheço,
Pago por fora o devido preço
De não caber no meu próprio abraço.
Se te idealizo no imenso espaço,
Finjo a certeza para não chorar;
Se a própria vida é um desfolhar
De incertezas que o peito sente,
Olho o destino e, francamente,
Não tenho, logo, mais que desejar.
Passam os dias feitos de brisa,
Água que corre sem ter destino,
Um eco leve, som cristalino,
Que a própria ausência sutiliza.
Minha alma flui e se harmoniza
Na névoa fina da madrugada;
Não sinto a falta da caminhada,
Pois descobri no silêncio místico
Que, além do tempo característico,
Pois em mim tenho a parte desejada!...