O SOM E A FÚRIA
Em O SOM E A FÚRIA (The Sound and the Fury), William Faulkner constrói uma das obras-primas mais complexas e arrebatadoras da literatura do século XX. O romance narra a decadência moral, financeira e estrutural da família Compson, uma antiga aristocracia do sul dos Estados Unidos. Contudo, o grande triunfo de Faulkner não reside apenas na tragédia familiar, mas na genialidade da sua estrutura narrativa, dividida em quatro seções marcadas pelo fluxo de consciência e por diferentes perspectivas existenciais.
A primeira parte, narrada por Benjy — um homem de trinta e três anos com deficiência intelectual —, desorganiza o tempo cronológico. Para Benjy, passado e presente fundem-se através dos sentidos: o cheiro das árvores, o frio da neve, o som de um portão. Em seguida, a narrativa passa para Quentin, o irmão atormentado pelo peso da honra, do incesto simbólico e do tempo irreversível, culminando em uma poesia trágica e suicida. A terceira visão pertence a Jason, o irmão pragmático, amargurado e cruel, enquanto o capítulo final, em terceira pessoa, gravita em torno de Dilsey, a empregada negra que sustenta o que resta de humanidade daquela casa.
Faulkner exige do leitor uma entrega absoluta. O romance não apenas conta uma história de decadência, mas faz o próprio leitor vivenciar o colapso do tempo e da linguagem. É uma obra monumental sobre a memória, a culpa e a inevitável erosão do afeto humano.

Autoria: Lucas Louis Nevile Gouthier