O AROMA DO CAFÉ DE ANTIGAMENTE
Existe um tipo de viagem no tempo que não exige máquinas complexas ou teorias da física; basta fechar os olhos e respirar fundo quando o café começa a passar na cozinha. O olfato é o mais nostálgico dos nossos sentidos. Ele guarda gavetas da memória que a gente nem sabia que existiam, e o cheiro do café tem o poder quase mágico de nos devolver à infância em questão de segundos.
Quando sinto esse aroma subir, sou transportado imediatamente para a cozinha de uma época em que o relógio parecia correr mais devagar. Lembro-me do som do bule de alumínio chiando no fogão e da paciência quase sagrada com que o café era coado no velho coador de pano. Não havia a praticidade fria das cápsulas modernas ou a pressa dos copos de plástico para viagem. O café daquele tempo exigia um ritual. Era o pretexto perfeito para reunir as pessoas ao redor da mesa de madeira, sem pressa, sem celulares interrompendo, apenas pelo puro prazer da conversa.
O café de antigamente tinha gosto de acolhimento. Vinha acompanhado de um bolo de fubá saído do forno, de um pão caseiro com manteiga e, principalmente, de risadas fáceis. Ali, naquela cozinha simples, discutia-se a vida, relembravam-se causos antigos e fortaleciam-se os laços. A fumaça que subia da xícara parecia carregar embora as preocupações do mundo lá fora.
Hoje, na correria dos dias atuais, muitas vezes engolimos o café em pé, de olho no trânsito ou respondendo a e-mails. Transformamos o afeto em combustível para aguentar a rotina. Mas, de vez em quando, quando me permito parar e preparar o café sem pressa, sinto que estou resgatando um pedaço daquela paz. O aroma do café de antigamente me lembra de que as melhores coisas da vida não mudaram: continuam sendo o calor de um lar, a simplicidade de um momento e a doçura das memórias que carregamos no peito.

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier