MOTE
Chora no peito uma dor sem razão,
Como a chuva que cai sobre a cidade;
Que tédio imenso nesta soledade,
Que corta em duas o meu coração!
A BALADA DO TÉDIO
Ó formas alvas, formas de gesso,
Névoas de incenso que nas catedrais,
Unem soluços destes imortais,
No canto escuro que eu não conheço.
Neste calvário onde eu padeço,
Preso nas teias da negação,
Nenhum gemido traz redenção;
O arcanjo negro quebra a quimera,
E no inverno de uma nova era,
Chora no peito uma dor sem razão.
A folha em branco desafia o traço,
O cisne preso no lago gelado,
Guarda o segredo do voo quebrado,
No azul estéril do imenso espaço.
Falta o poema, sobra o cansaço,
Da inteligência que busca a verdade;
O mundo perde a claridade,
Neste silêncio que o gênio fita,
Enquanto a mente, deserta, imita,
Como a chuva que cai sobre a cidade.
O Spleen sufoca nas tardes escuras,
Um céu de chumbo desaba no teto,
Onde o demônio, sutil e secreto,
Canta as canções de antigas torturas.
Já não há flores, nem criaturas,
Apenas a marcha da humanidade,
Cega ao destino e à fatalidade,
Carrega o peso de um verme antigo,
Que faz do peito o pior castigo:
Que tédio imenso nesta soledade.
No meu cubículo de estudante,
Fito o retrato da virgem morta,
Onde a loucura bate na porta,
Com seu sorriso macabro e constante.
Meu sangue ferve, febril, distante,
Nesta agonia de alucinação;
Não há remédio nem salvação,
A febre aumenta, a noite avança,
Trazendo a sombra da velha lembrança,
Que corta em duas o meu coração!

Lucas Louis Neville Gouthier