"O tamanho do mundo não se mede em quilômetros,
mas na distância que a nossa imaginação consegue voar."
O MENINO QUE COLECIONAVA QUINTAIS
Léo era um menino miúdo, de joelhos ralados e olhos da cor de jabuticaba, que morava no último andar de um prédio cinzento, bem no meio de uma cidade que parecia ter esquecido como pintar os dias de sol. Onde Léo morava, não havia árvores para subir, grama para correr ou terra para fazer castelos. A sua janela dava apenas para outras janelas de vidro e concreto.
Mas Léo tinha um superpoder que ninguém mais no prédio conhecia: ele era um colecionador de quintais.
Como ele não tinha um quintal de verdade, ele guardava os quintais que imaginava dentro de caixas de sapatos velhas, embaixo de sua cama. Cada caixa tinha um universo inteiro que ele criava com pedaços de papel colorido, tampinhas de garrafa, barbantes e muita imaginação.
Na caixa azul, ficava o "Quintal dos Ventos Brincalhões". Quando Léo abria aquela tampa, ele imaginava que o chão era feito de nuvens fofas e que as árvores davam frutos em forma de cata-ventos que giravam e assoviavam músicas de ninar quando a brisa soprava.
Na caixa verde, morava o "Quintal da Floresta de Bolso". Lá dentro, ele colocava galhos secos que encontrava na calçada e fingia que eram florestas gigantescas, onde formigas eram dinossauros mansos e uma tampinha com água virava um lago cristalino onde os passarinhos iam tomar banho.
Certo dia, uma menina chamada Sofia mudou-se para o apartamento ao lado. Sofia passava os dias sentada na área de serviço, olhando para o céu cinzento com uma expressão muito triste. Ela havia vindo do interior e sentia uma saudade dolorida do cheiro de terra molhada e do balanço que tinha na árvore da casa de sua avó.
Vendo a tristeza da nova vizinha pela janela, Léo teve uma ideia. Ele pegou a sua caixa mais bonita — uma caixa grande, que ele havia pintado com tinta amarela da cor do girassol — e bateu na porta de Sofia.
— Oi, Sofia! Eu vi que você está com saudades de ter espaço para brincar — disse Léo, estendendo a caixa com um sorriso sincero. — Eu vim te dar um quintal de presente.
Sofia piscou, confusa, mas a curiosidade foi maior. Ela pegou a caixa e abriu a tampa devagar. Dentro, Léo havia colado folhas secas que guardara do outono, desenhara um enorme balanço preso a uma árvore de papelão e, no fundo da caixa, espalhara um punhado de terra de verdade que pegara do vaso de samambaia da sua mãe.
Quando Sofia sentiu o cheiro daquela terra e viu o capricho do desenho, seus olhos se encheram de luz. O cinza do apartamento pareceu sumir por um instante.
— É lindo, Léo... — sussurrou ela, tocando na mini árvore de papelão. — Parece o quintal da minha avó, só que cabe nas minhas mãos.
— Agora ele é seu — disse o menino. — E se você quiser, amanhã a gente pode inventar um quintal novo juntos. Um quintal que tenha um castelo de nuvens e um rio de chocolate.
Sofia sorriu de orelha a orelha, e a partir daquele dia, o último andar do prédio cinzento virou o lugar mais colorido da cidade. Léo e Sofia descobriram que, mesmo morando em um apartamento apertado, eles tinham o maior quintal do mundo inteirinho: aquele que nascia na amizade deles e que nenhuma parede era capaz de trancar.

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier