CAFÉ COM SAUDADE
A chuva batia ritmada contra a vidraça da cafeteria, criando uma cortina líquida que isolava o mundo lá fora. Aquele cliente, em especial, observava o vapor subindo da xícara, desenhando arabescos que desapareciam no ar, assim como certas promessas de juventude. A saudade, naquele fim de tarde, não tinha um rosto específico; era uma sensação difusa, como uma melodia de piano ouvida de longe. Não era uma tristeza, mas uma visita esperada, alguém que bate à porta sem avisar e para quem já temos um lugar reservado à mesa. Ele escrevia no guardanapo palavras soltas, tentando capturar o exato momento em que o presente se torna lembrança, aquela transição sutil onde a realidade ganha o tom sépia da nostalgia.
O café esfriava, mas a alma aquecia-se com a percepção de que só sente saudade quem teve a coragem de viver momentos que valeram a pena ser guardados. Ele observava os outros clientes: o casal que discutia em voz baixa, o estudante absorto em seus fones de ouvido, a senhora que olhava para o nada com um sorriso doce. Todos ali pareciam carregar seu próprio quinhão de ausências. No entanto, ele sentia que a cafeteria era um porto seguro para os náufragos do cotidiano, um lugar onde o tempo parava para que pudéssemos reorganizar as peças do que fomos e do que ainda pretendemos ser.
Ao sair, ele deixou o guardanapo sobre a mesa — um presente anônimo para o próximo cliente que buscasse abrigo contra a tempestade. O papel continha apenas uma frase: "O que passou não morreu, apenas se tornou parte do que você é agora". Caminhando sob o guarda-chuva, sentia o asfalto molhado refletir as luzes da cidade como se o chão fosse feito de estrelas líquidas. A saudade já não pesava; ela era agora uma luz suave, guiando seus passos de volta para casa, onde o calor do lar o esperava para transformar a chuva lá fora em apenas mais um cenário para sua próxima crônica!...

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier