Na noite escura, a Solidão me abraça,
Como um fantasma que não tem mais voz;
O tempo corre, devastando a nós,
E a própria vida, como um sopro, passa.
Preto: Lucas Louis Neville Gouthier
Cinza: Antero de Quental
O ECO DO VAZIO
O lago chora na margem fria,
As velhas árvores guardam o teto,
Onde o passado, doce e discreto,
Era a moldura da minha alegria.
Hoje o silêncio faz companhia,
Nesta penumbra de pouca graça,
O vento frio da tarde caça
As folhas secas que o chão consome,
E enquanto o eco repete teu nome,
Na noite escura, a Solidão me abraça.
Saudades eternas da minha infância,
Daquela sombra do laranjal,
Onde o inverno não fazia mal
E o amor vivia sem a distância.
Hoje o perfume perdeu a fragrância,
O mundo corre veloz e algoz,
Fiquei sozinho, que horror atroz,
Neste deserto que o peito encerra,
Olhando as cinzas da minha terra,
Como um fantasma que não tem mais voz.
Do alto do monte vejo o oceano,
A humanidade sofrendo a esmo,
Onde o tirano combate a si mesmo
No turbilhão do progresso humano.
Não há socorro no erro profano,
O século grita por entre os nós;
A morte corta com sua foice pós
Os reis, os templos, a própria glória,
E no naufrágio de toda a história,
O tempo corre, devastando a nós.
Olho as estrelas no firmamento,
Escriba eterno de cada esfera,
Que conta os séculos da nova era
E mede o peso do meu lamento.
A forma pura do pensamento
É a joia rara que o verso enlaça,
Mas a beleza que a mente traça
Não freia a marcha do festival:
O homem tomba no chão mortal,
E a própria vida, como um sopro, passa!...