A IMENSIDÃO DO OCEANO
A imensidão do oceano provoca um impacto transcendental na psique humana, e a memória da primeira vez em que os nossos olhos encontraram a linha infinita do horizonte marítimo fica registrada com tintas indeléveis na alma. Sair de trás das dunas ou contornar a última curva da estrada e ser confrontado de repente com aquela massa azul gigantesca em movimento causa um misto de espanto, reverência e profunda pequenez. O barulho rítmico e hipnótico das ondas quebrando na areia, o cheiro forte da maresia que invade as narinas e a sensação térmica do vento úmido batendo no rosto criam um choque sensorial que muda a nossa percepção sobre os limites do mundo. Ali, diante do mar, a mente infantil ou jovem percebe que a realidade é infinitamente maior do que os limites do bairro onde cresceu.
Aquele primeiro contato físico de dar os passos hesitantes na areia fofa e molhada, sentindo a água gelada tocar os pés pela primeira vez e recuar logo em seguida, gravou um registro de liberdade pura no nosso corpo. Brincar na arrebentação sem preocupação com o tempo, construir castelos de areia que sabíamos que seriam destruídos pela próxima maré e colher conchinhas como se fossem os tesouros mais preciosos do universo moldaram a nossa relação com o efêmero e com a grandiosidade da vida. O mar nos ensinou, de forma silenciosa e rústica, sobre a força dos ciclos, sobre a necessidade de deixar ir o que a onda quer levar e sobre a certeza de que a vida está em constante movimento, renovando-se a cada instante na praia.
Visitar essa memória nos dias de hoje, quando estamos sufocados pelas paredes dos escritórios e pela rotina cinzenta das metrópoles, funciona como um verdadeiro banho de descarrego espiritual para a nossa mente cansada. Fechar os olhos no meio do caos urbano e sintonizar internamente o barulho daquela primeira arrebentação é lembrar de que a imensidão continua lá fora, existindo independente das nossas pequenas cobranças virtuais e prazos apertados. Que possamos manter viva a reverência daquela criança diante do oceano, lembrando-nos de que a nossa alma foi feita para navegar em águas profundas e de que nunca devemos nos contentar com a pequenez dos aquários que o mundo moderno tenta nos impor diariamente.

Lucas Louis Neville Gouthier