"O impossível é apenas uma realidade
que esqueceu de calçar os sapatos antes de sair para passear."
A MENINA QUE PENTEAVA O CREPÚSCULO
Na pequena cidade de Miragem do Sul, as leis da física operavam de forma um pouco diferente do resto do continente. Ali, os relógios de corda não marcavam horas, mas sim o humor das nuvens, e os guarda-chuvas eram usados para proteger as pessoas do excesso de poesia que caía do céu nas noites de lua cheia. Era nesse vilarejo que vivia a jovem Íris, cujo trabalho era o mais delicado da região: ela era a Penteadora do Crepúsculo.
Todos os dias, exatamente às 17h45, Íris subia até o ponto mais alto da torre da igreja antiga levando consigo um pente esculpido em um osso de baleia voadora e três fitas de cetim tecidas com fios de silêncio.
Quando o sol começava a se deitar atrás das montanhas de algodão, o céu não mudava de cor sozinho. As cores do entardecer — o rosa-choque, o laranja-fogo e o roxo-profundo — desciam sobre a cidade como longos novelos de lã emaranhados pelo vento. Se Íris não estivesse lá para desembaraçar aqueles fios celestes, a noite simplesmente não conseguia chegar, e a cidade ficava presa em um fim de tarde eterno.
Com movimentos suaves e precisos, Íris passava o pente pelas franjas do horizonte. À medida que desembaraçava os nós de luz, o céu ia ganhando um aspecto liso, brilhante e degradê perfeito, estendendo-se como um manto de seda sobre as casas de Miragem do Sul.
Certo dia, porém, o vento norte — que andava meio entediado — resolveu pregar uma peça na jovem. Ele soprou com tanta força que roubou o pente de osso de baleia das mãos de Íris e o jogou direto dentro do poço da praça central, um poço que não tinha fundo, pois se conectava diretamente com o avesso do mundo.
Sem o pente, o crepúsculo daquela terça-feira começou a virar um caos. As cores se misturaram feito tinta em balde de pintor. O rosa brigou com o roxo, o laranja deu um nó cego na primeira estrela da noite e o céu ficou parecendo uma colcha de retalhos bagunçada. O tempo travou. Os passarinhos não sabiam se dormiam ou se cantavam, e os moradores começaram a ficar preocupados com aquele entardecer que não desatava.
Sem hesitar, Íris correu até a praça. Olhou para o fundo do poço sem fim e percebeu que precisava usar a imaginação, que era a única ferramenta capaz de flutuar no surrealismo de sua cidade.
Ela desfez as tranças de seu próprio cabelo comprido, que tinha a cor exata do mistério das cinco da tarde. Íris debruçou-se sobre a borda do poço e começou a cantar uma melodia que sua avó lhe ensinara: uma música cujas notas eram feitas de gravidade invertida.
Ao ouvir o canto, o poço sem fundo começou a transbordar para cima. A água do poço subiu em forma de uma enorme bolha flutuante e, bem no centro dela, vinha o pente de osso de baleia, trazido por um peixe que tinha asas de borboleta.
Íris pegou o pente de volta, agradeceu ao peixe com um aceno e subiu correndo os degraus da torre. O céu já estava quase chorando lágrimas de tinta cinza de tanta confusão.
Com as mãos firmes, ela começou a pentear o horizonte com o triplo da velocidade. Ela desfez o nó cego do laranja, acalmou o roxo-profundo e amarrou as pontas do entardecer com suas fitas de cetim. Num suspiro de alívio coletivo de toda a cidade, o céu finalmente se alisou, abrindo espaço para que a noite escura e estrelada entrasse de mansinho, cobrindo o mundo com o seu cobertor de calmaria.
Lá de cima, Íris guardou seu pente mágico na caixinha de fósforos onde guardava os horizontes passados. Ela olhou para as primeiras estrelas e sorriu, sabendo que, enquanto houvesse poesia nas pontas de seus dedos, o mundo nunca perderia a beleza de seus finais.

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier