MOTE
O Tempo é um jogador ganancioso
Que ganha sempre, sem precisar trapacear!
A noite avança, o dia vai tombar;
O abismo tem um estômago faminto.
Preto: Lucas Louis Neville Gouthier
Cinza: Charles Baudelaire
O BANQUETE DAS HORAS
No necrotério da existência humana,
Sinto o veneno do escaravelho,
Onde a matéria se curva ao espelho
E a carne podre se desengana.
Esta engrenagem fria e tirana
Mutila o corpo mais orgulhoso,
Pois o relógio, monstro ruidoso,
Suga o oxigênio da nossa vida,
E nesta terra já apodrecida,
O Tempo é um jogador ganancioso.
Chove no peito como na rua,
Uma neblina de notas tristes,
E tu, fantasma, por que insistes
Em ver a alma deserta e nua?
A velha infância não mais recua,
O tédio canta para ninar;
Nenhum soluço vai nos salvar
Dessa penumbra que o vento traz,
Neste compasso em que morre a paz,
Que ganha sempre, sem precisar trapacear.
Larguei as armas na barricada,
Fugi dos templos de ouro e giz,
Busquei o inferno que eu mesmo fiz
Na juventude descarrilada.
A madrugada vem embriagada,
O Sol é um vulto a cambalear,
Não há estradas para voltar,
As fogueiras viraram cinza fria,
E no galope da agonia,
A noite avança, o dia vai tombar.
Abro os meus braços para o mistério,
Onde a Razão já perdeu o trono,
E no cansaço de um longo sono,
Vejo o planeta virar cemitério.
Não há orgulho, não há império,
Nenhum milagre que eu sinta ou pinto;
Diante da morte, tudo o que sinto
É a certeza de que a matéria
Desce ao vazio da cinza séria,
O abismo tem um estômago faminto!...