INVERNO, A ESTAÇÃO DO ACONCHEGO
O inverno chegava de mansinho, infiltrando-se pelas frestas das portas e convidando ao recolhimento absoluto. Para Marcinha, o frio não era um inimigo, mas um convite à intimidade. Era a estação em que a casa se tornava um universo inteiro. O som da chuva batendo no telhado servia de trilha sonora para suas leituras mais densas. O inverno pedia lã, pedia café fumegante e, acima de tudo, pedia a presença daqueles que aquecem a alma por dentro. Era o tempo de hibernar as ideias para que elas ganhassem consistência.
Ela gostava de ver o vapor da própria respiração no ar da manhã, um lembrete físico de que estamos vivos e aquecidos em meio ao frio. As noites eram longas, e o silêncio do inverno parecia mais profundo, quase palpável. Era nessas horas que Marcinha escrevia suas crônicas mais introspectivas, mergulhando em memórias que o gelo do tempo não conseguia apagar. O inverno ensina o valor do essencial: um cobertor, um livro, uma palavra amiga. Tudo o que é supérfluo desaparece quando o termômetro cai.
Ao olhar pela janela a paisagem cinzenta, ela não via tristeza, mas a beleza da sobriedade. O inverno é a estação do aconchego, onde as árvores mostram sua estrutura real, sem o adorno das folhas ou flores. Marcinha sentia que a escrita de inverno era como um bom vinho: precisava de tempo, de calma e de temperatura certa para ser apreciada. Ao fechar a última página do dia, sentia que, embora o mundo lá fora estivesse gelado, sua "escrivaninha" era um foco de calor eterno, alimentado pela chama da criação que nunca se apaga!....

Lucas Louis Neville Gouthier