O estetoscópio escuta o ritmo e a ciência nomeia a dor, mas só
a palavra compreende o silêncio e o afeto traduzido no o peito.
O RESGATE DO CALOR HUMANO
O mundo atual parece caminhar em um ritmo automático e distante. Às vezes, as relações humanas parecem saídas de uma geladeira: frias, calculistas e rígidas. Mas nós não somos feitos de gelo. Fomos criados para pulsar, aquecer e acolher.
Muitos acreditam piamente que a riqueza material e a capacidade de comprar o que desejam são sinônimos de uma felicidade eterna. Imaginam que quem tudo tem, nunca chora. Que engano. Os dias frios e a névoa da tristeza também visitam os corações bilionários. O dinheiro compra o conforto, mas nunca construirá uma barreira capaz de impedir a solidão ou a frieza de se aproximarem.
A maior ironia da nossa época é que cruzamos diariamente com pessoas que possuem cofres cheios de dinheiro, mas são miseráveis de afeto. E, pior, negam esse carinho ao seu semelhante.
Tocar o coração de alguém com uma palavra sincera, um gesto delicado ou um abraço apertado é uma das maiores riquezas da vida. É algo que o dinheiro não pode comprar, mas que todos nós temos em estoque para doar. Se o mundo está se congelando, o que seremos nós amanhã? Robôs programados para rotinas vazias? Onde vai parar o calor humano que estamos deixando apagar?
Precisamos, urgentemente, resgatar o que temos de mais bonito em nosso ser. A vida é colorida, as nuances são lindas! Por que insistir em enxergar os dias apenas em preto e branco? Coloque cor na sua rotina. Olhe para o seu amigo, para o seu colega de trabalho, com mais amor e empatia — sentimentos que tornaram-se tão raros que corremos o risco de, no futuro, não reconhecermos mais o nosso semelhante. Seja você a próxima pessoa a acender uma luz de esperança no coração de alguém.
No consultório, atendo diariamente pacientes que já entram com o diagnóstico pronto. Pedem um calmante como se a química fosse resolver todas as dores da alma. O que elas buscam, na verdade, é anestesiar a própria vida. Querem parar de sentir a tristeza, querem se apagar. Para elas, eu olho nos olhos e digo: “Eu não vou lhe dar um calmante. Você não precisa apagar a luz que existe dentro de você.”
Com todo o cuidado e respeito, eu me levanto, dou um abraço caloroso e acolho: “Eu estou aqui por você. Deixe o amor entrar nos seus dias. Deixe o sol aquecer o seu peito. O mundo lá fora pode até maltratar o seu coração, mas você é a única pessoa que tem o poder de dar um fim a essa tristeza, ou de permitir que ela crie raízes profundas até se transformar em algo muito mais doloroso. Abra a porta e permita-se ser feliz, nem que seja apenas por hoje.”
Ver essas pessoas saindo da consulta com um sorriso nos lábios, sem nenhuma receita de tarja preta na mão, é a minha maior recompensa. Quando me agradecem pelo carinho, eu apenas devolvo: “Eu só te dei o amor que você também pode dar para quem está ao seu lado.”
Seja amigo de você mesmo. Não permita que a melancolia te transforme em alguém refém de um diagnóstico médico no futuro. Enquanto a vida lhe permitir sorrir, sorria. Tudo no universo tem começo, meio e fim, mas a sua história ainda está no início. Lute por você. Não desista do sol, pois ele ainda brilha aí dentro. Seja você o reflexo da beleza que quer ver nos olhos dos seus amigos. Você também pode ter a mesma alegria que eles carregam.
Acredite em você. Boa sorte na sua jornada!...


Dr. Lucas Louis Neville Gouthier