- Arquivo Pessoal
MOTE
Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Preto: Lucas Louis Neville Gouthier
Cinza: Florbela Espanca
Buscamos a glória em castelos de vento,
Num turbilhão de orgulho e de quimera,
Mas o tempo destrói o que se espera
E o que resta é apenas o lamento.
O ouro perde a cor e o brilho lento,
Aos olhos desta humana ilusão.
Ganhamos palcos, palmas e atenção,
Para depois cair no esquecimento...
Por mais que a alma queira a exaltação,
Tudo é vaidade neste mundo vão...
Olho o espelho e vejo a marca fria
Dos anos que passaram sem aviso,
Onde ficou aquele belo riso
Que a juventude outrora prometia?
A terra cobra a sua garantia,
A carne pela idade governada.
Toda a riqueza resta sepultada
Sob o silêncio que o destino traz:
Na ausência absoluta desta paz,
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
Queremos rir, queremos a bonança,
Erguer os olhos para o firmamento,
Achar que cada novo movimento
Será o porto de uma nova dança.
Buscamos a pureza da infância,
A luz que corre pela caminhada,
Mas a jornada já nasce marcada
Pelo limite que o viver impõe;
O próprio tempo dita e descompõe,
E mal desponta em nós a madrugada...
O sol esconde o raio derradeiro,
O frio toma o espaço que era luz.
A mesma estrada que ao amor conduz
Revela o abismo escuro e passageiro.
O homem chora e perde o paradeiro,
Ao ver desfeita a sua construção.
Não há remédio, força ou oração
Que mude o rumo do final da estrada:
Quando a cortina desce, enfim fechada,
Vem logo a noite encher o coração!...