Dr. Lucas Louis Neville Gouthier
Só quem ama tem disposição de ir além da superfície.
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"O amor não é a pressa de chegar,

mas o milagre de encontrar o infinito no passo calmo

 de quem caminha ao nosso lado."

 

RITMO DOS PASSOS DESENCONTRADOS 

 

Durante cinco anos, Mariana e Lucas viveram na mesma cidade, frequentaram a mesma cafeteria nas manhãs de outono e pegaram a mesma linha de metrô às dezoito horas. No entanto, eles nunca haviam se notado. Mariana era tradutora de livros e vivia com os olhos mergulhados em páginas e dicionários no celular. Lucas era arquiteto e caminhava sempre analisando as fachadas dos prédios antigos, com fones de ouvido que o isolavam do burburinho da metrópole.

 

Eles eram duas linhas paralelas na geometria caótica da cidade grande. Até que um pequeno acidente logístico do destino resolveu intervir.

 

Numa sexta-feira de chuva tipicamente cinzenta, o sistema de energia do metrô falhou, bem no momento em que ambos cruzavam a catraca da estação Central. As luzes de emergência se acenderam, os trens pararam e a multidão começou a se esmagar em direção à única saída de escada rolante — que agora funcionava como uma subida comum, pesada e lenta.

 

No meio do empurra-empurra, Mariana tropeçou no cadarço de sua própria bota e deixou cair sua bolsa. O zíper estragado cedeu, espalhando uma dezena de canetas, um caderno de notas e um livro de poesias francesas pelo chão molhado de passos apressados. As pessoas passavam por cima, chutando seus pertences sem ver.

 

Desesperada, ela se abaixou para recolher as folhas, sentindo as lágrimas arderem nos olhos pelo cansaço do dia. Foi quando uma mão masculina pousou sobre o livro de poesias, protegendo-o de ser pisoteado por um sapato social.

 

— Ei, calma. Eu ajudo você — disse uma voz calma, que parecia ignorar o caos ao redor.

 

Mariana ergueu os olhos e deu de cara com Lucas. Ele já havia guardado o caderno dela e agora estendia o livro seco com um sorriso reconfortante. Pela primeira vez em anos de correria, ambos pararam de olhar para o relógio ou para as telas. O tempo, que na cidade sempre corria na velocidade da luz, pareceu desacelerar para o ritmo de um relógio de corda antigo.

 

— Obrigado — murmurou Mariana, ajeitando o cabelo úmido. — Esse livro é de um autor muito raro. Eu ficaria arrasada se o perdesse.

 

— Jacques Prévert — Lucas leu o nome na capa antes de entregar. — Minha avó costumava dizer que ele escrevia sobre os encontros que a vida planeja em segredo. Parece que ela estava certa.

 

Com a estação completamente travada, os dois decidiram subir para a superfície. A chuva havia diminuído para uma garoa fina. Sem trens funcionando, a única opção era caminhar. Lucas abriu seu guarda-chuva preto e, naturalmente, o estendeu sobre a cabeça de Mariana.

 

Caminharam por trinta quarteirões. O que deveria ser uma jornada cansativa e irritante transformou-se em uma conversa fluida, daquelas onde os assuntos se encaixam como peças de um quebra-cabeça esquecido. Lucas descobriu que Mariana traduzia os livros que ele adorava ler antes de dormir; Mariana descobriu que Lucas tinha projetado a reforma da praça que ela tanto gostava de frequentar nos fins de semana.

 

Eles descobriram, acima de tudo, que o amor não precisa de grandes palcos ou de flechas de cupido. Às vezes, ele só precisa de uma pane no metrô, de um livro caído e da disposição de caminhar sob a mesma chuva, dividindo o mesmo espaço seco.

 

Quando finalmente chegaram à esquina onde os caminhos de suas casas se separavam, a chuva já havia parado por completo. Lucas fechou o guarda-chuva, mas nenhum dos dois deu o passo de despedida.

 

— Acho que o destino cansou de fazer a gente andar em círculos — disse Lucas, estendendo a mão livre. — Você aceita tomar um café amanhã? Prometo que não vou deixar nenhuma caneta cair.

 

Mariana sorriu, segurando a mão dele, sentindo que aquela caminhada forçada havia sido, na verdade, o início da viagem mais bonita de sua vida.

 

— Só se for na cafeteria da esquina da Rua Sete. Às nove da manhã?

 

— Estive lá todos os sábados nos últimos cinco anos — Lucas riu, maravilhado. — Mas amanhã vai ser a primeira vez que eu realmente vou chegar lá.

 

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier

Lucas Louis Neville Gouthier
Enviado por Lucas Louis Neville Gouthier em 21/10/2026
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