Dr. Lucas Louis Neville Gouthier
Só quem ama tem disposição de ir além da superfície.
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil
Textos

 

HISTÓRIAS CONTADAS À LUZ DO LAMPIÃO

 

As noites de tempestade que resultavam em apagões elétricos prolongados costumavam provocar uma transformação mágica na dinâmica interna de uma casa antiga. O sumiço repentino da luz artificial, que inicialmente causava um pequeno sobressalto de susto, logo abria espaço para uma calmaria rústica e um recolhimento familiar que a modernidade raramente nos permite experimentar. Acender as velas guardadas no armário da cozinha ou o velho lampião a querosene transformava os cômodos conhecidos em um cenário de mistério, onde as sombras gigantescas dançavam nas paredes ao ritmo das chamas vacilantes. Sem a distração da televisão ou dos aparelhos eletrônicos, o silêncio da noite era preenchido apenas pelo barulho da chuva batendo na janela.

 

Era nesse momento de escuridão providencial que o verdadeiro milagre da convivência humana acontecia ao redor da mesa da sala ou na cama dos pais. Reunidos sob a luz suave e trêmula da vela, começavam as sessões de contação de histórias antigas, causos de família de dar medo ou risada, e brincadeiras lúdicas de fazer sombras de animais com as mãos na parede branca. As vozes ganhavam um tom mais baixo e acolhedor, quase conspiratório, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir e apenas aquele pequeno círculo de luz importasse no universo. Aquela escuridão forçada pela natureza nos aproximava fisicamente, fazendo com que buscássemos o calor e o conforto do toque do outro para espantar o medo do escuro.

 

Guardar a memória dessas noites de apagão nos faz perceber o quanto nos tornamos dependentes do excesso de estímulos luminosos e virtuais para preencher o nosso tempo livre na atualidade. A luz da vela tinha a capacidade preciosa de clarear as nossas relações internas, permitindo que nos enxergássemos de verdade e que conversássemos sobre sentimentos puros sem a interferência das notificações incessantes do mundo moderno. Que possamos aprender a criar os nossos próprios "apagões voluntários" na rotina diária, desligando as telas artificiais para acender a luz da presença real dentro das nossas casas. No final das contas, as memórias mais brilhantes da nossa trajetória não foram banhadas pela luz dos refletores, mas sim pelo brilho manso de uma vela que nos uniu ao redor do que há de mais sagrado no amor familiar.

 

Lucas Louis Neville Gouthier

Lucas Louis Neville Gouthier
Enviado por Lucas Louis Neville Gouthier em 21/10/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.