A ANATOMIA DA SAUDADE
Preencher um armário com roupas e objetos antigos é tarefa exaustiva para os cabides e para o espaço, mas acomodar a falta de alguém na cavidade do peito é uma obra de armazenamento dedicada exclusivamente à alma. Sofia desenhava os volumes dessa ausência física usando a distância dos quilômetros como régua e a amor preservado como alicerce inabalável. Cada gaveta desse relicário imaterial era decorado não com naftalina ou cânfora, mas com o eco suspenso de uma risada antiga que evoca presença imediata e com o brilho das fotografias mentais que cruzaram o seu caminho e decidiram nunca mais desbotar.
Não havia vazios sólidos que rompessem a estrutura, mas fronteiras feitas de lembrança, onde o teto era a própria imortalidade e as frestas permaneciam permanentemente arejadas para que o perfume de quem partiu pudesse entrar sem precisar pedir passagem.
Ela compreendia, com a clareza de quem já habitou muitos lutos, que a verdadeira herança de um homem não possui um testamento em cartório ou um inventário de bens; ela reside inteiramente na capacidade de transformar o adeus em permanência e o eco passageiro em uma estrutura eterna de reverência.
Nessa casa de saudades, o tempo não era um vento indesejado que trazia o esquecimento, mas um curador de honra que ajudava a expor os afetos. Ao caminhar pelos corredores de suas próprias faltas, Sofia sentia o calor de um abraço que nunca se desfaz, pois é alimentado pelo desejo contínuo de fazer do mundo um lugar menos desamparado e mais habitável através do traço firme de quem sabe que a memória é a única coisa que realmente sustenta o que perdemos!...

Autoria: Lucas Louis Neville Gouthier